A violência nas escolas tem de acabar

11/08/2011 at 18:08 6 comentários

(artigo enviado aos meios de comunicação e já publicado em diversos sites na internet)

Maria Izabel Azevedo Noronha*

A notícia de que 62% das escolas estaduais de São Paulo tiveram episódios de violência em 2010, veiculada recentemente pela imprensa, mostra o grave quadro da rede estadual de ensino no que se refere à violência nas escolas.  Nós, professores e professoras das escolas estaduais, vivemos essa situação no nosso cotidiano e temos a percepção de sua extensão e gravidade. Por isso, consideramos que o número de escolas atingidas pode ser ainda maior, pois nem todas as ocorrências são registradas. Assim, as medidas que o governo estadual pretende tomar, segundo a reportagem, são positivas, porém insuficientes.

Esse não é um tema novo para nós e acreditamos que o Estado tem demorado muito para agir. Pesquisa realizada em 2006 pela APEOESP, em conjunto com o DIEESE, junto aos participantes de seu XXI Congresso Estadual indicou que 87% dos professores e professoras da rede estadual haviam tomado ciência de casos de violência na escola. A agressão física foi citada por 82% dos entrevistados como rotineira, só perdendo para agressão verbal (96%) e atos de vandalismo (88,5%). Além disso, 70% dos entrevistados afirmam saber de casos de tráfico de drogas no ambiente escolar e 67% de consumo pelos alunos. Acreditamos que essa situação tenha se agravado desde então. A superlotação das salas de aula é um dos fatores que mais contribuem para a violência nas escolas, para 77,3% dos entrevistados.

Em 1999, quando começaram a se generalizar casos de agressões e vandalismo nas escolas, a APEOESP realizou uma manifestação com mais de 10 mil pessoas no centro da capital, na qual a questão da violência ganhou destaque. Também lançamos a campanha “Paz nas Escolas”, com o objetivo de discutir com a sociedade civil as causas do problema e possíveis soluções. Uma das atividades da Campanha foi uma teleconferência, transmitida às escolas, que contou com a participação de professores de todo o Estado.

Diante da omissão das autoridades, a campanha foi intensificada em 2002. Naquele ano, a Secretaria da Educação divulgou índices parciais sobre a violência nas escolas, baseados apenas em relatórios de diretores e registros policiais. Em contraposição, a APEOESP realizou uma aula pública para demonstrar que os dados do governo não refletiam a realidade e, também, para denunciar a política de “aprovação automática” dos estudantes do ensino fundamental, o que, no nosso entendimento, contribui para reduzir a autoridade do professor e para o aumento da indisciplina e da violência.

Também quando o governo joga a culpa pelos problemas da educação sobre o professor e institui uma série de provinhas para “avaliar” nossa capacidade profissional, contribui diretamente para aumentar a indisciplina e o desrespeito para com o professor. Não são provinhas desse tipo que podem avaliar nossa experiência e nossa capacidade; elas servem apenas para punir e excluir docentes.

Em 2009, criamos o espaço “Observatório da Violência” no site da APEOESP, no qual os professores podem registrar casos de violência na escola e, se necessário, receber assistência jurídica do sindicato. Registre-se que o departamento jurídico da APEOESP tem atuado em diversos casos dessa natureza.

Mais recentemente, outra questão vem se somar ao já complicado quadro da violência escolar: o chamado assédio escolar (bullying). O trágico massacre de de Realengo, ocorrido na Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, despertou a atenção da sociedade para esse problema, que contribui sem dúvida para adensar o clima de insegurança vivenciado por professores, estudantes e suas famílias e demais segmentos da comunidade escolar.

Por isso, a APEOESP lançou no último mês de abril a Campanha “Cuidado: o Assédio Escolar (Bullying) Mata!”, destinada a promover nas escolas e demais ambientes sociais um debate sobre causas, consequências e formas de prevenir o assédio escolar. Também por iniciativa da APEOESP está tramitando na Assembleia Legislativa projeto de lei que cria, na primeira semana de abril, o Dia Estadual de Combate e Prevenção ao Assédio Escolar (bullying).

A violência no interior das escolas não se resume a um problema de segurança, embora seja necessária a presença efetiva da ronda escolar no entorno das unidades escolares para prevenir a presença do tráfico de drogas, vândalos, gangues e outros criminosos. Entretanto, a grande saída é o investimento, não apenas material, mas na valorização dos profissionais da Educação e a instituição de mecanismos de gestão democrática que aproximem os alunos e suas famílias da escola.

Se a escola não se tornar um lugar prazeroso para seus alunos, respondendo a seus anseios e se a autoridade do professor não for reconstituída, por meio de políticas de valorização, a violência escolar vai persistir. Por isso, cabe ao governo desenvolver políticas coletivas, nas quais a questão da violência não seja vista de forma isolada, mas como parte de uma política educacional que assegure ensino de qualidade para todos.

* Maria Izabel Azevedo Noronha é presidenta da APEOESP – Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo – e membro do Conselho Nacional de Educação e do Fórum Nacional de Educação

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6 Comentários Add your own

  • 1. Benedito  |  13/08/2011 às 14:39

    A violência nas escolas acontecem todos os dias e em todos os lugares.Não é só falar da violência que irá acabar.Onde houver um professor dando aulas, com certeza ele será uma vítima da violência , tanto moral quanto física , a desvalorização e o esvaziamento da autoridade do professor, com essas engenharias pedagógicas dessa turma de pensadores neo liberais onde o professor na receita deles tem que aprender a fazer, aprender a ensinar, aprender a aprender, em que o professor não é mais professor e sim, um prendiz é a raiz de todos os assédios e de todas as violências.
    E pro falar em violência , é necessário investir mais na discussão do Assédio Moral recentemente a USP, foi condenada em primeira instância por prática de assédio moral, ou seja, abriu se um precedente muito importante para os casos de assédio moral que ocorrem nas escolas, portanto é necessário fazer a divulgação desse caso da Funcionária Regina Leal, que foi assediada durante anos na USP, e agora conseguiu na justiça a condenação da USP por essa prática.

    Resposta
  • 2. Benedito  |  14/08/2011 às 00:40

    Senhora Presidenta, gostaria de pedirl- lhe uma orientação para um professor aqui da região de São Carlos .O mesmo está sofrendo uma Sindicância instaurada pela Diretora da EE Professor Joaquim de Toledo ,a senhora Ana Beatriz Goes Durr, que entrou com um pedido e Sindicância contra o professor Altair Borges, na Procuradoria Geral do Estado pelo mesmo ter se recusado á comparecer á Comemoração Cívica na cidade de Itirapina local onde o mesmo leciona , e o mesmop teria escrito no livro de comunicado, que não iria por se tratar de na concepção dele um ato ilegal. Por este fato a diretora representou contra ele na Procuradoria , e está pedindo o seu comparecimento no dia 18 e Agosto sobre pena de correr á revelia a sindicância.
    Ele precisa urgente de uma orientação e de acompanhamento.
    Desde já obrigado e esperamos vossa orientação.

    Resposta
    • 3. apeoesp  |  14/08/2011 às 12:43

      Prezado professor Benedito,
      Ele deve imediatamente procurar o departamento jurídico na subsede.
      Bebel

      Resposta
  • 4. RENATO  |  24/08/2011 às 07:04

    O melhor texto já produzido aqui no blog. É a minha opinião. Irretocável em seu foco e contundência. Deveria, sem qualquer sombra de dúvida, ser publicado na imprensa. Pena que nunca o veremos nessa imprensa vendida e mascarada cooptada pelo capital e pelo governo de S.P.

    Resposta
  • 5. mizael  |  27/10/2011 às 10:51

    como famos acabar com a violencia nas escolas?

    Resposta
    • 6. apeoesp  |  27/10/2011 às 14:25

      Prezado professor Mizael,
      Não existe uma fórmula pronta. Precisamos nos unir, debater, dialogar e exigir políticas públicas do Estado, para além das questões de segurança. Investimentos em educação e nas melhoria geral das condições de vida é podem fazer a diferença.
      Bebel

      Resposta

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