Todos pela Educação?

02/04/2013 at 16:20 22 comentários

O Movimento Todos pela Educação, Organização Não Governamental, reúne representantes de grandes empresas e celebridades do mundo empresarial do país. Entre eles podemos destacar Jorge Gerdau Johannpeter (Gerdau), José Roberto Marinho (Globo), Milu Vilela (Itaú), Daniel Feffer (Suzano Papel e Celulose), Fernão Bracher, Viviane Senna e outros. Também fazem parte da ONG os economistas Gustavo Ioschpe e Ricardo Paes de Barros e a administradora de empresas Priscila Cruz, atual diretora executiva da entidade.

Detentores de uma fatia muito expressiva do PIB, essas pessoas se dedicam a tecer críticas e a produzir estudos sobre a educação pública brasileira. Curiosamente, são críticas e estudos produzidas por economistas e administradores de empresas e não por educadores. Não poderiam mesmo gerar outro resultado: sobram obviedades e críticas aos professores e faltam propostas efetivas para a melhoria da educação pública.

Em geral os estudos publicados pela ONG são baseados nos resultados das chamadas “avaliações externas” largamente aplicadas em nosso país, como Prova Brasil, ENEM, SARESP e outras avaliações do tipo “standard” aplicadas em diversos estados. Invariavelmente, a conclusão aponta para o professor como o responsável pelos maus resultados da aprendizagem estudantil, seja por deficiências de formação, seja por outros fatores.

No afã de classificar as escolas de acordo com os resultados destas avaliações externas – que são instrumentos importantes para balizar a definição de políticas educacionais, mas de forma alguma podem ser considerados em termos absolutos – integrantes do Movimento Todos pela Educação chegaram ao absurdo de propor que fosse afixado na porta de cada escola pública o resultado do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Brasileira), como uma espécie de credencial para as “boas” escolas e de condenação para as consideradas “más” escolas.

Este tipo de providência retomaria uma tentativa da ex-secretária estadual de Educação de São Paulo, Rose Neubauer, de mandar pintar as fachadas das escolas de acordo com o resultado do SARESP. O simples anúncio desta intenção causou tal alvoroço e rejeição da sociedade que a infeliz ideia foi prontamente arquivada.

Classificar as escolas de acordo com os resultados das avaliações não apenas desconsideraria uma série de fatores estruturais, sócio-econômicos e resultantes das políticas educacionais que interferem na aprendizagem dos estudantes, como levaria à estigmatização das escolas com piores resultados, o que tenderia a cristalizar as dificuldades. Isto seria exatamente o contrário do que vem sendo praticado pelo Governo Federal, por exemplo, por meio do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), que busca prestar maior assistência financeira, técnica e pedagógica às escolas mais fragilizadas.

Quando economistas e administradores de empresas, que jamais tiveram a vivência de um dia sequer em uma escola pública, pretendem se tornar formuladores de políticas educacionais, privilegiam-se dados quantitativos e as soluções produzidas são circunscritas aos problemas de “gestão”. Mas a questão é outra, cristalina e diz respeito ao campo das decisões políticas: é necessário compreender e valorizar efetivamente o papel do professor no processo ensino-aprendizagem, assegurando-lhe condições de trabalho.

Em muitos sistemas de ensino o professor é visto como um profissional a ser “treinado” para executar tarefas e ministrar conteúdos definidos à sua revelia por autoridades e gestores educacionais. Além disso, ele recebe salários muito baixos face à sua formação. Sua carreira é limitada e sem boas perspectivas profissionais. Na maior parte das vezes é submetido a um regime de trabalho onde pontificam autoritarismo, assédio moral, más condições de trabalho e outros fatores que interferem na aprendizagem dos estudantes e causam grande índice de adoecimento na categoria. Na rede estadual de ensino de São Paulo, por exemplo, 50 mil professores são contratados de forma precária e 65 mil são estáveis. Ou seja, 115 mil professores não efetivos num universo total de 239 mil integrantes do Quadro do Magistério.

Nós professores queremos, sim, melhor formação inicial e continuada e consideramos que é função do Estado provê-la. Por isso queremos a implantação da “jornada do piso”, ou seja, a destinação mínima de 33% da jornada semanal de trabalho para atividades extraclasse, como prevê a lei federal 11.738/2008. Queremos que os sistemas de ensino promovam cursos de formação, unindo teoria e prática educacional, em convênios com universidades públicas, durante a jornada e no local de trabalho dos professores. Não haverá formação adequada dos professores apenas com cursos para pequenos grupos, em feriados e finais de semana, em locais distantes.

Todos nós estamos de acordo que o Brasil precisa melhorar a aprendizagem de seus estudantes em Língua Portuguesa e Matemática. Mas não podemos concordar com as conclusões do Movimento Todos pela Educação quando propõem que o país focalize a educação pública na habilitação de nossas crianças e jovens nessas disciplinas, deixando de ver a educação como processo integral, que permita a todos o acesso ao conhecimento historicamente acumulado e a poderem contribuir para a produção de novos conhecimentos.

Nós gostaríamos muito de debater publicamente essas e outras questões, mas este grupo não é afeto a este tipo de iniciativa. Até hoje aguardamos resposta de Gustavo Ioshpe ao nosso convite para debatermos as críticas e desqualificações aos professores que costuma fazer nas páginas da revista Veja.

Acreditamos que o Brasil terá em breve um bom Plano Nacional de Educação como política de Estado, que lance bases para a estruturação do Sistema Nacional Articulado de Educação, regulamentando finalmente o regime de colaboração previsto na Constituição Federal. Da mesma forma, lutamos para que sejam destinados 100% dos royalties do petróleo e 50% do fundo composto pelos recursos da exploração do pré-sal para a educação pública. Diariamente lutamos por melhores condições de trabalho, gestão democrática, carreira, valorização profissional. Lutamos, enfim, por educação pública inclusiva, de qualidade, para todos os brasileiros.

Anúncios

Entry filed under: Artigos.

Redução de disciplinas e falta de professores: tudo a ver

22 Comentários Add your own

  • 1. Prof. Renato  |  03/04/2013 às 02:13

    Desta vez eu concordei em gênero, número e grau com você. Aliás, essa intromissão de completos leigos na seara da educação é um dos maiores impeditivos para os avanços nesta área. Eles não SABEM NADA sobre as realidades concretas e sobre os VERDADEIROS gargalos pedagógico-institucionais com os quais lidamos cotidianamente. Ou melhor, fingem que não sabem pois estão lucrando rios de dinheiro com esse proposital ilusionismo. Os culpados reais (eles próprios – mídia ideologizada, teorias pedagógicas de aluguel, “especialistas” em educação, empresários gananciosos, economistas mercenários, etc.) ficam sempre nas sombras. E nós fazemos as vezes de bodes expiatórios ideais. Esse texto deveria ser publicado: é relevante e iluminador. Parabéns!

    Responder
    • 2. apeoesp  |  03/04/2013 às 14:43

      Prezado professor Renato,
      Muito obrigada. É mais um incentivo para continuar lutando.
      Bebel

      Responder
      • 3. Célia  |  03/04/2013 às 23:35

        Não é uma resposta, mas um completo das opiniões em relação a esses(as) senhores(as), além de não saber nada, muitas vezes criam oportunidades para estarem presentes em Congressos,Capacitações, etc, para tirar de nós educadores(as) “IDÉIAS, EXPERIENCIAS, ETC, para depois transcrever em seus livros, projetos e ganhar muito dinheiro. São grandes oportunistas, isto sim.

        Célia.

      • 4. apeoesp  |  05/04/2013 às 17:46

        Prezada professora Célia,
        É bom que reflitamos sobre isto. Todos temos o direito de opinar sobre educação, um bem social. O que não pode é que esses “especialistas” tenham tanto espaço na mídia e junto ao poder público, enquanto que nós, profissionais da educação, somos simplesmente desconsiderados e desrespeitados.
        Por isso, concordo com você: são oportunistas, sim, muitos deles em busca de oportunidades para negócios.
        Bebel

  • 5. Vilma  |  03/04/2013 às 08:18

    Prezada Bebel,

    Muito me indigna a situação do professor em relação a das empregadas domésticas. Não desmerecendo a classe, mas nós não temos sequer horário de almoço; eu mesma não almoço 4 dias por semana, inviável para emendar manhã e tarde e dado ao estresse acumulado. Não temos os privilégios da CLT. Estudamos vários anos, elas não tem qualificação profissional universitária. Será que é justo? ficamos brigando por migalhas, pois a vida profissional do professor é incerta e temos que nos submeter aos mandos e desmandos da SEE sem regalias.
    Um caso a ser pensado, repito, sem desmerecer a categoria.
    Abraços

    Responder
    • 6. apeoesp  |  03/04/2013 às 14:34

      Prezada professora Vilma,
      É fundamental a valorização dos professores. Você tem razão: estamos lutando ainda contra os efeitos desta desvalorização, mas queremos legislações e políticas que correspondam à importãncia social da nossa profissão. Por isso, é preciso que acompanhemos com toda a atenção e empenho a tramitação do PNE, que conquistemos o Plano Estadual de Educação, que tenhamos um carreira de acordo com as diretrizes nacionais, que seja aplicada a lei do piso em toda a sua extensão e que venham outras leis de valorização do magistério.
      Bebel

      Responder
  • 7. alessandro  |  03/04/2013 às 17:04

    hoje penso diferente sou plenamente de acordo com a federalização do professor os estados não merecem administrar este Profissional

    Responder
  • 8. Suzana  |  03/04/2013 às 19:54

    Eu gostaria de ter noticias de que pé esta a luta judicial pelas 26 aulas e o mandado de segurança do artigo 22

    Responder
    • 9. apeoesp  |  05/04/2013 às 18:02

      Prezada professora Suzana,
      Em ambas temos sentenças ganhas.
      No caso da lei do piso, o Estado tem conseguido protelar a execução da sentença, mas fizemos gestões junto ao tribunal que podem fazer avançar o processo no próximo período.
      No segundo caso, solicitamos a execução da sentença, mas a juíza ainda não determinou esta providência.
      Nos dois casos estamos atentos e trabalhando, mas as decisões não dependem de nós, que somos parte interessada.
      Bebel

      Responder
  • 10. Vilma  |  03/04/2013 às 20:22

    Prezada Bebel,

    Creio que devemos dar ênfase em dois pontos.
    A falta de professores nas escolas; a mídia coloca todos os dias essa notícia e a mesma resposta da SEE. Por que os professores do último concurso barrados na perícia, assim como eu, não puderam assumir seus cargos? eu tenho um, mas, e quem não tem nenhum e apostou tudo nesse concurso?
    O outro ponto é a a violência a que estamos sendo submetidos. Além das mortes, dos feridos, a falta de educação dos pais, dos alunos, enfim, uma situação lastimável de todos nós, sem contar o salário aviltante….
    Abraçoshttp://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/04/escola-em-sp-tem-reclamacao-por-trocas-e-faltas-de-professor-de-fisica.html

    Responder
    • 11. apeoesp  |  05/04/2013 às 17:51

      Prezada professora Vilma,
      Temos trabalhado esses pontos, juntamente com outros que compõem o terrível quadro que estamos vivendo. Com a greve, com certeza teremos um pouco mais de espaços para denunciar estas situações.
      Bebel

      Responder
  • 13. Mauricio  |  04/04/2013 às 01:13

    Olá Bebel. A U.E. onde trabalho resolveu criar novo sistema de avaliação padrão que, segundo eles, consiste em aplicar e registar no mínimo 04 instrumentos de avaliação (jeitos de avaliar) por bimestre. No novo sistema estabeleceram até o valor de cada tipo de avaliação. Não concordei, pois acredito que fere a liberdade de cátedra. O que posso fazer quanto a isto?

    Responder
    • 14. apeoesp  |  05/04/2013 às 17:23

      Prezado professor Mauricio,
      Você deve discutir esse assunto em todos os espaços da escola em que isto for possível: sala dos professores, conselho de classe, HTPC, conselho de escola. Crie debate, movimento, contraditório, para que possa haver um ambiente que permita eventual recuo. Se quiser, pode consultar o departamento jurídico na subsede para verificar se o procedimento fere algum preceito legal.
      Bebel

      Responder
  • 15. rita de cassia domingues silva  |  04/04/2013 às 01:24

    Bebel, boa noite. Compartilho suas ideias, mas, infelizmente não guardo mais tantas esperanças. Preciso de um esclarecimento: desde o ano passado tenho direito a licença prêmio, mas a secretária da escola alega que não tem tempo de fazer a contagem pois a ordem da vice-diretora é priorizar as aposentadorias (6 pessoas). Existe outra maneira de conseguir o meu direito ou tenho mesmo que aguardar a boa vontade dos f.p.?

    Responder
    • 16. apeoesp  |  05/04/2013 às 17:20

      Prezada professora Rita,
      Sim, você pode recorrer ao departamento jurídico, na sua subsede.
      Bebel

      Responder
  • 17. Luiz  |  04/04/2013 às 14:46

    PARABÉNS pelo brilhante texto! Com certeza, a educação irá mudar quando quiserem ouvir os verdadeiros especialistas em educação: os professores que estão em sala de aula há 10, 20,30 anos… e não á um “bando de almofadinhas” que não precisam pegar ônibus ás 5 da manhã e carregar marmita debaixo do braço, pois estão com a vida ganha por muitas e muitas gerações, porque neste país a distribuição de riqueza é uma das piores deste mundo. Tem que taxar a fortuna dessa gente em uma porcentagem bem alta, pra eles terem menos tempo para fala tanta bobagem e nós trabalhadores que carregamos o país nas costas – pra meia dúzia de ratos gozarem a vida – termos a vida digna que merecemos!

    Responder
    • 18. apeoesp  |  05/04/2013 às 15:26

      Prezado professor Luiz,
      Muito obrigada pelas suas palavras. Elas são um incentivo à luta e à busca de mais qualidade para a escola pública e por justiça social.
      Bebel.

      Responder
  • 19. Thiago  |  05/04/2013 às 03:42

    A APEOESP deveria lançar um desafio público a todas estas “celebridades” que palpitam sobre a educação: lecionar, durante um mês, em uma escola pública. Vamos ver se eles fazem melhor do que nós.

    Responder
    • 20. apeoesp  |  05/04/2013 às 14:45

      Prezado professor Thiago,
      É boa ideia. De uma forma diferente, é o que temos feito.
      Obrigada.
      Bebel

      Responder
  • 21. teo  |  06/04/2013 às 04:35

    Essa é pra acabar de vez com qualquer credibilidade que estes ” especialistas” se propõem a fazer na area educacional. Hoje li no site do UOL que, a partir de 2016 os pais serão ” obrigados” a matricular seus filhos de 4 anos.Ora, se não tem vagas nas escolas nem pra quem procura, sem escolas, sem professores,sem qualidade…..imagina que milagre deverá ocorrer em 2016 neste país.

    Responder
    • 22. apeoesp  |  07/04/2013 às 15:34

      Prezado professor Teo,
      Não creio que estejamos falando sobre a mesma coisa. A obrigatoriedade do ensino público e gratuito é uma medida progressista, que força o poder público a prover escolas para todos. A questão é com fazê-lo, o que demanda mais recursos para a educação e políticas educacionais que levem à concretização deste direito. Cabe também à sociedade cobrar do poder público, em todas as suas esferas, a construção de mais escolas, com qualidade, professores suficientes, com salários e jornada adequadas e carreira justa. Muitas das coisas que os “especialistas” combatem, dizendo que o problema está apenas na formação do professor.
      Bebel

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Mensagem da Presidenta da APEOESP às professoras

Clique no play para ouvir.

Blog Stats

  • 4,805,200 hits

%d blogueiros gostam disto: