‘Professores reclamam mais do medo que do salário’, diz psiquiatra

26/08/2014 at 18:20 17 comentários

Reportagem da BBC:

À frente de sessões de terapia em grupo para professores da rede pública há mais de 25 anos, o psiquiatra Lenine da Costa Ribeiro diz que as agressões físicas e verbais vindas de alunos são os principais motivos de doenças psicológicas entre os educadores que recorrem ao divã.

Segundo o médico do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual de São Paulo, seis em cada dez professores não conseguem mais voltar às salas de aula após enfrentarem episódios de agressões graves – como humilhação, ameaças e ataques físicos.

VIOLÊNCIA CONTRA PROFESSORES

Segundo os dados nacionais da Prova Brasil, do Ministério da Educação (2011),

um terço dos professores que responderam ao teste disse ter sido agredido verbalmente por alunos.Um em cada dez afirmou ter sofrido ameaças e aproximadamente um a cada 50 disse ter sido agredido físicamente por estudantes.

Entre 2003 e 2004, pesquisa da Unesco mostrouque 83% dos alunos de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador, Belém e do Distrito Federaldisseram que havia violência nas escolas públicas onde estudavam. Entre professores e funcionários, o número sobe para 86%. Cerca de 30% deles viram armas nas mãos dos alunos.

Investigação de 2013 da Apeoesp (Associação dos Professores do Estado de São Paulo) indicou que

44% dos professores da rede estadual afirmam já terem sofrido alguma violência (agressão verbal ou física) nas escolas onde dão aula.

O tema da violência em sala de aula contra professores também foi destacado em posts de CliqueFacebook e no CliqueTwitter por leitores em consultas promovidas pelo #salasocial, o projeto da BBC Brasil que usa as redes sociais em busca de uma maior integração com o público.

A pedido da BBC Brasil, internautas, entre eles professores, compartilharam, via CliqueFacebook, Cliquediferentes relatos sobre violência cometida contra profissionais de ensino. Houve também depoimentos feitos via CliqueGoogle+ e CliqueTwitter.

De acordo com Ribeiro, assumindo cargos de “readaptação”, como funções na secretaria ou na biblioteca escolar, esses educadores tendem a ser vistos como figuras menos importantes do que aqueles que seguem dando aulas.

Desinteresse pela vida, depressão, perda de memória e problemas de cognição são algumas das consequências da violência no cotidiano das escolas, diz o psiquiatra. Leia, a seguir, os principais trechos da conversa:

BBC Brasil – A violência na escola é um tema recorrente nas sessões de terapia?

Lenine da Costa Ribeiro – O medo dos alunos, as situações de agressão e humilhação e a sensação de impotência são as queixas mais comuns nas reuniões. Fala-se sempre sobre salário ou infraestrutura das escolas, mas a insegurança do professor em relação aos alunos é um tema bem mais frequente. Os professores reclamam mais do medo que do salário.

BBC Brasil – Quais são suas consequências para a saúde dos professores?

Ribeiro – Surgem transtornos de ansiedade generalizada. O estresse pós-traumático é um agravamento importante da saúde mental e leva a sintomas como pânico em diferentes níveis, falta de interesse pela vida, depressão, perdas de memória, dificuldades de cognição e fobias distintas. São sintomas que não respondem rápido aos tratamentos e que por isso costumam ser longos, assim como os períodos de afastamento, que chegam a durar mais de um ano.

BBC Brasil – Como é esse tratamento?

Ribeiro – Primeiro, com medicação. Antidepressivos e neuromoduladores. O tratamento medicamentoso tenta abreviar o sofrimento o mais rápido possível, mas também são necessários pelo menos dois anos de monitoramento. Neste período o professor participa de sessões de psicoterapia feitas em grupo, onde todos compartilham e discutem experiências. Muitos deles são afastados das escolas até que consigam se recuperar.

Cada agressão afeta não só a relação do professor com o agressor, mas também com todos os demais alunos

BBC Brasil – Quais são os principais relatos compartilhados nas sessões?

Ribeiro – Há pessoas que tinham grande capacidade de dar aulas, articulação didática, e que ficaram completamente apáticas. O mais frequente é a incapacidade do professor de dar aula porque está sendo impedido agressivamente. Ele não consegue mais se impor e perde toda a autoridade diante da turma. Ameaças também são frequentes, não são só ameaças contra a vida, mas contra o patrimônio da pessoa, como esvaziar os pneus do carro, por exemplo. O maior medo é sofrer reprimendas na rua, depois das aulas, fora da escola.

CliqueLeia mais em: Professora tenta suicídio duas vezes após agressões consecutivas de alunos

BBC Brasil – Algum caso que o tenha marcado?

Ribeiro – Uma professora tinha advertido um aluno em sala. Na reunião de pais, a família, particularmente o pai, foi muito intensamente agressivo no auditório repleto de pessoas. Seu discurso era raivoso e acusador. Depois desse evento, ela nunca mais pode funcionar da mesma maneira. A maneira agressiva com que ele tentou tirar satisfações foi tão hostil e a estressou de tal forma que essa a professora nunca mais conseguiu dar aulas. A humilhação é tão dolorosa quanto a agressão física. São várias as formas de violência.

BBC Brasil – Pode falar sobre estas diferentes formas de agressão?

Ribeiro – A violência física não costuma ser tão explícita, ela é menos comum. Na rotina mesmo estão as agressões verbais, a desconsideração, um desrespeito profundo à condição do professor. O que acontece é uma descaracterização de seu papel. O educador, aquela pessoa que seria central e determinante na construção de um sujeito, de um indivíduo, de uma personalidade, é tirado de seu lugar. Isso é muito grave, tem consequencias muito importantes, porque cada agressão afeta não só a relação do professor com o agressor, mas também com todos os demais alunos.

BBC Brasil – É comum que os professores extravazem este estresse agressivamente sobre os alunos?

Ribeiro – Quem está limitado não costuma criar enfrentamentos. Essas pessoas costumam ter respostas mais apáticas, por conta da ansiedade, da depressão. Isso tudo acaba colocando o professor numa situação de limitação e quase sempre quem está limitado não consegue entrar em situações de enfrentamento.

Uma porcentagem importante, em torno de 60% dos pacientes, volta para a escola ocupando funções administrativas, ou na biblioteca, na secretaria. Este retorno é muito difícil.

BBC Brasil – Como é o retorno destes professores à sala de aula?

Ribeiro – O que vejo nesses casos é que o retorno acontece quase sempre de forma readaptada, e não à sala de aula. Uma porcentagem importante, em torno de 60% dos pacientes, volta para a escola ocupando funções administrativas, ou na biblioteca, na secretaria. A readaptação é às vezes a única maneira de dar continuidade ao cargo. Este retorno é muito difícil.

CliqueLeia mais em: Escolas, alunos e professores ‘não falam mesma língua’

BBC Brasil – Como as escolas costumam reagir aos pedidos de afastamento?

Ribeiro – Posso falar sobre o momento do retorno. Os readaptados dizem sempre sofrer algum tipo de prejuízo. Isso acaba se tornando parte da própria condição social deles. Acabam sendo vistos como uma posição de menos valia, o que causa baixa autoestima. É como se eles passassem a ter menos valor do que aqueles que estão lecionando.

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Professor Vagner, amigo e companheiro da APEOESP, assassinado em frente à escola. Até quando tanta violência?

17 Comentários Add your own

  • 1. PAULO ROBERTO  |  26/08/2014 às 19:17

    Sou readaptado e assino em baixo de tudo isso que foi escrito e somado a isso temos o assédio moral vindo de todos os lados

    Responder
  • 2. Prof Clovis  |  26/08/2014 às 19:39

    O governo que cuida da educação é o mesmo da segurança. O que falta para a categoria parar? Não é só salário. Estamos morrendo com a violência, com o assédio, com jornadas intermináveis, etc. Chega!!!

    Responder
  • 3. Maria Aparecida da Silva Barbosa (BIA)  |  26/08/2014 às 21:11

    Em virtude da falta de respaldo para se trabalhar em sala de aula com respeito dos discentes, dos pais e da equipe gestora e do próprio sindicato, a partir dessa data estou em LTS afastada pela psiquiatria.

    Responder
  • 4. Sueli dos Santos Silva  |  26/08/2014 às 21:51

    Sou professora readaptada, recentemente consegui ser aprovada num concurso de matemática,porém devido a readaptação por stress não posso assumir.Acho que nenhum professor está ileso de uma futura readaptação devido à violência que sofremos dentro das escolas,e por isso está na hora de darmos as mãos e sermos uma classe unida,pois sinto a discriminação até mesmo de colegas de trabalho.Isso muito me entristece,ninguém sabe seu dia de amanhã.Agradeço esse espaço para desabafo e peço ao nosso sindicato que se possível façam uma campanha à não discriminação aos professores readaptados.Continuamos professores com inúmeras qualidades,pois,mesmo readaptada passei no concurso,alias em ciências e Matemática e os que se dizem “Normais” passaram todos????

    Responder
  • 5. Thiago  |  27/08/2014 às 23:04

    Bebel, minha opinião é polêmica, mas acho que precisamos trazer um tema para o debate. A educação deve ser um direito, não obrigação. Temos que acabar com o ensino compulsório.

    O que isso significa? As redes públicas teriam o direito de recusar matriculas de alunos – observados o direito de defesa em diversas instâncias – que sistematicamente ofendem, humilham e agridem professores e que recebem a proteção, ou negligência, de suas famílias.

    Responder
    • 6. apeoesp  |  30/08/2014 às 13:05

      Prezado professor Thiago,
      Não creio que esta seja uma solução, pois poderia dar margem à negativa de direitos por parte das autoridades. Creio que a questão da violência não tem raiz apenas na questão disciplinar. É preciso alterar o modelo educacional que nós temos, aprimorar currículos, aproximar as famílias das escolas, fortalecer os conselhos de escola, instituir a gestão democrática nas unidades escolares e formular políticas educacionais de acordo com as reais necessidades das comunidades escolares.
      Bebel

      Responder
  • 7. Magali de Cássia Merenda  |  02/09/2014 às 21:56

    Prezada Bebel
    Concordo plenamente com o prof. Thiago, pois direito é uma coisa e ser obrigado pela lei a estar na escola é outra. E se continuar desta forma, os alunos e seus familiares que acham que o prof. é um mero “empregado” do seu filho, por a escola ser pública, não conseguiremos melhorar o ensino .No quesito citado por você, que a violência não tem rais apenas na escola, eu concordo, porém é na escola que ela se manifesta de forma mais violenta, pois os educadores e funcionários tem poucos direitos e muitos deveres, sendo que os alunos tem poucos ou quase nada de dever e muitos direitos, e assim essa equação não tem um bom resultado. Não é por que são muito jovens, que mal entraram na adolescência que podem tudo. Nessa faixa, na realidade eles já entendem o querem e sabem o que podem fazer em uma escola e quais as consequências.

    Responder
  • 8. Ricardo Garcia  |  06/09/2014 às 17:07

    Olá, Bebel, Boa Tarde
    Na data de ontem a G.O.E. de minha escola me disse que deverá fazer a desatribuição de aulas de P.A matemática, que possuo, porém tal desatribuição será retroativa a partir de 08/08, data do conselho do 2º Bimestre, e os valores que já trabalhei e recebi deverão ser devolvidos.

    Responder
    • 9. apeoesp  |  13/09/2014 às 15:57

      Prezado professor Ricardo Garcia,
      Por favor, ligue para 11.33506214 e verifique como proceder,
      Bebel

      Responder
  • 10. Maria Aparecida da Silva Barbosa (BIA)  |  13/09/2014 às 17:39

    No dia 11/09/2014 passei pela pericia na região de Santos na Praça Narciso de Andrade, S/N -Vila Matias – Avenida Rangel Pestana, e apresentei o relatório da LTS feito pela psiquiatria com os respectivos cids: F43 F41 para o afastamento de 45 dias, e ouvi do Perito André o seguinte que ele não iria colocar esse cid e que não estava nem aí para o mesmo, e queiria colocar o cid “Z…” que é doença do trabalho e que o mesmo será zerado! Foram muitos absurdos! Não quis ver nenhum dos exames que levei e tampouco o medicamento que estou tomando, requereu apenas que eu apresentasse um Boletim de Ocorrência que havia feito por ter sido xingada enquanto escrevia na lousa, fora chamada de “sapatão”, não sou e se fosse merecia respeito, e o absurdo é que pós ler o B.O., o tal perito André, me pergunta se sou homossexual, chorei muito e disse que não sou e prezo pelo respeito. No momento estou aguardando publicação no D. O para saber o que ele digitou.

    Responder
    • 11. apeoesp  |  21/09/2014 às 12:44

      Prezada professora Maria Aparecida,
      Por favor, envie com urgência um relato sobre esta situação para presiden@apeoesp.org.br para que eu possa levar ao conhecimento do Secretário da Educação.
      Obrigada.
      bebel

      Responder
  • 12. Sueli dos Santos (@20141Dos)  |  21/09/2014 às 11:48

    Após o comentário que postei em 26/8 às 21:51,no dia 28 fui hospitalizada por surto.

    Responder
    • 13. apeoesp  |  21/09/2014 às 12:56

      Prezada professora Sueli,
      Sinto muitíssimo. Precisamos mudar muita coisa na educação do estado de São Paulo.
      Melhoras. Boa sorte.
      Bebel

      Responder
  • 14. bellmarshall  |  23/09/2014 às 01:24

    haverá duzentena em 2015?

    Responder
    • 15. apeoesp  |  27/09/2014 às 13:06

      Prezada professora Bellmarshasll,
      Sim, haverá. Ingressamos com ação judicial para derrubá-la.
      Bebel

      Responder
  • 16. VANESSA CRISTINA  |  24/09/2014 às 02:09

    Bebel,gostaria de saber se há previsão ou qualquer possibilidade de terceira chamada para o Concurso Peb II,obrigada

    Responder
    • 17. apeoesp  |  27/09/2014 às 12:44

      Prezada professora Vanessa,
      Segundo a SEE, não há previsão.
      Bebel

      Responder

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