Pedagogia do atraso

20/10/2014 at 12:44 16 comentários

Reproduzo o artigo abaixo, publicado no jornal O Estado de S. Paulo deste domingo (19/10), para nossa reflexão.

EDUARDO PORTELLA – O ESTADO DE S. PAULO

18 Outubro 2014 | 16h 00

O tema da educação sempre surge em período eleitoral para cair no esquecimento logo depois

melhores condições de trabalho apeoesp

Eterna reivindicação. A educação, ou é de qualidade ou não é, diz autor

Os períodos eleitorais costumam dedicar especial cuidado à educação. Um cuidado só proporcional ao esquecimento pós-eleitoral. Uns enfatizam a importância do ensino superior, do médio, do fundamental e prometem a multiplicação das creches. Até aí, nenhuma novidade. Mas se esquecem que, em matéria de educação, tudo é prioritário. Do pré ao pós. Chego até a imaginar que a pós-graduação começa no pré-escolar.

No que diz respeito ao ensino médio, os indicadores oficiais e oficiosos apontam para acentuada perda de rendimento. Em 16 Estados houve substancial retrocesso. Permanecemos dessincronizados face à velocidade das mudanças.

As questões do acesso nos diferentes níveis precisam ser reprogramadas, alargando-se a interlocução entre professores e alunos. Sem esquecer dos empresários empreendedores. E daí configurando o novo desenho da profissionalização, capaz de atender à formação de quadros, em consonância com as atuais exigências da gestão pública e privada. Vem se tornando insuportável o déficit da gestão em um país que é candidato, até aqui reincidente, a vaga no mapa das potências emergentes.

O pré-requisito dessa jornada, realista ou apenas ambiciosa, é o compromisso da qualidade. A educação, ou é de qualidade ou não é. É o que venho chamando de uma pedagogia da qualidade. Seria uma redundância se não continuasse a ser uma questão em aberto. Somente a educação de qualidade, mais especificamente hoje, é capaz de promover a inclusão social. Caso contrário, distante do pacto qualitativo, ela não passará de um perigoso agente da exclusão social. A qualidade jamais é concebida abstratamente, sem chá e sem pouso, mero troféu de guerra. Ela é o ponto de encontro e de desencontro entre o conjunto de demandas historicamente enraizadas e as incertezas da vida cotidiana. Logo, depende de todos nós.

O papel e o lugar do professor não têm sido satisfatoriamente compreendidos. Ao lado da valorização profissional e remunerativa, seu exercício cotidiano necessita de condições de trabalho adequadas, de instrumentos técnicos atualizados, de laboratórios e bibliotecas convenientemente equipados.

Por isso mesmo reivindico, para o professor do nosso tempo, a condição de carreira de Estado, distante de vento e tempestades ocasionais. Como o caso da carreira de diplomata. O professor independe do diplomata. Já o diplomata não se habilita sem passar pelo professor. Sobretudo agora, quando a diplomacia cada vez mais funciona menos.

O professor deve ser visto e tratado como protagonista da frente comum da reconstrução nacional. E tendo em vista a diferença entre o país adiado e o país com os prazos vencidos. Eles quase nunca coincidem. O Brasil se encontra no primeiro caso.

Convém não negligenciar a interface estrutural entre educação e a cultura, hoje separadas em dois ministérios distintos. A educação é a cultura escolarizada, enquanto a cultura vem a ser a educação transescolar. Ambas aguardam, com certa ansiedade, o encontro, ou a parceria, entre o virtuoso e o virtual, transitando pelas grandes veredas e os pequenos sertões, o transitório e o transitivo, o endividamento e o controle.

A educação deve ser um projeto social vazado de interlocução intelectual, recorrendo à participação pública e privada, e mesmo ao intercâmbio criterioso de trocas materiais e capital simbólico. É altamente preocupante a deficiência operacional de nossa gestão administrativa, justamente porque têm faltado a ela educação e cultura.

Há todo um esforço a ser desenvolvido, tendo como força motriz a vontade de transformação, inscrita na reinvenção da democracia, hoje abalada pela corrupção representativa alimentada pela fraude política, pela desqualificação do Estado, pela instabilidade econômica, pela globalização de mão única. Por todas essas razões, ou desrazões, as nossas contas educacionais permanecem no vermelho.

Eduardo Portella é escritor, professor e advogado. Ex-ministro da Educação e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), é autor de ‘Jorge Amado – a sabedoria da fábula’ (Tempo Brasileiro)

Anúncios

Entry filed under: Artigos.

Quem ataca os nordestinos trama contra o Brasil Carta ao Jornal Folha de S. Paulo

16 Comentários Add your own

  • 1. Prof. Marques  |  20/10/2014 às 14:17

    Ola Apeoesp, tenho uma duvida quanto a atribuição de 2015, estou numa escola que possui apenas 72 aulas de matemática para o ano que vem, E tem 3 professores efetivos , 1 deles já era da casa com jornada básica e outros 2 são ingressantes de julho de 2014, com jornada inicial. Eu sou o ultimo dos 3. A pergunta é os 2 primeiros podem ampliar a jornada e escolher jornada integral, Sim ou Não? Deixando o terceiro com apenas 12 aulas que é uma jornada reduzida. Isso está correto? .Não confirmei a inscrição ainda porque queria escolher jornada básica e corro o risco de ir pra outra UE. Se puder me respondam.

    Responder
    • 2. apeoesp  |  25/10/2014 às 16:15

      Prezado professor Marques,
      Sim, eles podem fazê-lo. A não ser que a diretoria da escola promova um entendimento entre todos para garantir a distribuição das aulas.
      Bebel

      Responder
  • 3. efraimgf  |  20/10/2014 às 16:01

    Olá, Bebel!

    Sou professor efetivo da Rede. Assumi em 2012. Entretanto, em 2007, passei no concurso PEB II, mas não pude assumir porque não tinha diploma ainda (estava cursando a faculdade ainda). Queria saber se posso usar esse concurso para fins de pontuação (acrescentar 1 ponto a mais na minha pontuação).

    Tenho dois cargos no Estado. Quero exonerar um deles, o que assumi este ano, porque não quero ficar adido e ser mandado para onde a diretoria quiser. Se eu exonerar, posso resgatar a pontuação dele (2º cargo) para o meu 1º cargo? (Sou efetivo na mesma disciplina).

    Gostaria que, se possível, você me esclarecesse essas dúvidas.
    Desde já agradeço a atenção que sempre você me tem dispensado neste espaço virtual.

    Responder
    • 4. apeoesp  |  25/10/2014 às 16:11

      Prezado professor Efraim,
      Sim, você pode contabilizar esses pontos.
      Quanto à segunda parte da pergunta, por favor, ligue para 11.33506214 para melhor informação.
      Bebel

      Responder
  • 5. ROSANA  |  20/10/2014 às 16:58

    OI! BEBEL
    FUI APROVADA NO CONCURSO DE 2013 P/ PEB II, ISTO SIGNIFICA QUE JÁ ESTOU INSCRITA P/ ATRIBUIÇÃO DE 2015??
    OUTRA PERGUNTA AINDA NÃO FUI CHAMADA P/ O REFERIDO CONCURSO, OU SEJA SÓ “FUI APROVADA”, MESMO ASSIM JÁ ESTAREI AUTOMATICAMENTE INSCRITA P/ REFERIDA ATRIBUIÇÃO??
    OBRIGADA!
    UM ABRAÇO!
    ROSANA

    Responder
    • 6. apeoesp  |  25/10/2014 às 16:07

      Prezada professora Rosana,
      Sim, você está automaticamente inscrita, independentemente de ter sido chamada ou não.
      Bebel

      Responder
  • 7. Renata  |  25/10/2014 às 16:43

    Boa tarde!
    Sou aprovada do concurso de 2013, porém, ainda não fui chamada. Sou categoria F e consegui efetuar minha inscrição. Tenho também algumas aulas como O, como meu contrato é de setembro de 2013, não consegui fazer a inscrição como O. Por ser remanescente, e o contrato sendo de 2013, vou ser inscrita automaticamente como O ?
    Agradeço.

    Responder
    • 8. apeoesp  |  02/11/2014 às 12:55

      Prezada professora Renata,
      Não. Por encerrar seu contrato em 2014, terá que cumprir a duzentena.
      A APEOESP ingressou com ação judicial contra a duzentena e para que todos possam inscrever-se, mas não conseguimos liminar. Aguardamos a decisão de mérito. Se favorável, as inscrições terão que ser reabertas.
      Bebel

      Responder
  • 9. Ana  |  30/10/2014 às 15:53

    Prezada Profª Bebel,

    Sou categoria O, ao realizar a inscrição para atribuição 2015 no GDAE, apareceram os mesmos Projetos da Pasta do ano passado, inclusive trabalho em um desses. Existe a possibilidade de podermos participar dos projetos? Havia um comentário que 2015 categoria O estaria fora. Obrigada pelo espaço!

    Responder
    • 10. apeoesp  |  02/11/2014 às 11:34

      Prezada professora Ana,
      Se você já participou e eles aparecem, creio que não haverá problemas para a continuidade.
      Bebel

      Responder
  • 11. Caio  |  01/11/2014 às 10:22

    Errata
    Prezada Bebel, espero que esteja bem. Seguem algumas dúvidas:

    – Me cadastrei como categoria “S” no dia 13/10 e ontem a inscriçao sumiu do GDAE, sabe o motivo?!
    – Estou terminando o contrato de categoria “O”, pegarei quarentena por nunca ter cumprido carência. Nesse quadro sou remanescente?(a supervisora da minha UE nos informou que só será considerado remanescente o professor que não tiver que cumprir a carência de 200 dias * exigência do Ministério Público); Trabalho no programa PEP ha dois anos, a inscrição se dá por pasta, como S consegui me inscrever para 2015, mas na inscrição do projeto exige inscrição como “O” para 2015. Na condição de remanescente poderei concorrer a recondução?
    – Há chance e tempo do sindicato conseguir mudar essa situação dos categorias “O” em final de contrato?

    Grato. Att, Caio.

    Responder
    • 12. apeoesp  |  02/11/2014 às 11:18

      Prezado professor Caio,
      Estou bem, obrigada. Espero que também esteja.
      Sim, a APEOESP tem ação judicial para que todos possam inscrever-se e participar do processo inicial de atribuição de aulas e pelo fim da duzentena. Não foi concedida liminar e aguardamos a decisão do processo. Se favorável, as inscrições terão que ser reabertas.
      Prevalece no seu caso a exigência de cumprimento da duzentena.
      Bebel

      Responder
  • 13. Sandra  |  04/11/2014 às 11:51

    Quando sai o resultado final da prova de mérito?

    Responder
    • 14. apeoesp  |  09/11/2014 às 19:35

      Prezada professora Sandra,
      Ainda não temos essa informação.
      Bebel

      Responder
  • 15. Katita  |  05/11/2014 às 00:29

    Boa noite Bebel, infelizmente mais um ano se passou e NADA do senhor governador e secretário cumprir a nossa jornada, todo ano a mesma coisa eles dizem que estão estudando e etc…trabalharemos mais um ano sem esperanças, até quando teremos que esperar?

    Responder
    • 16. apeoesp  |  09/11/2014 às 19:26

      Prezada professora Katita,
      Desde junho vimos convocando a categoria para a greve, única forma que vemos para levar este governo a cumprir a lei do piso e negociar reajuste salarial,. Infelizmente a categoria não se mostra até o momento disposta a realizar este movimento. Continuaremos realizando nosso trabalho e convocando os professores e professoras para a luta.
      Bebel

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Mensagem da Presidenta da APEOESP às professoras

Clique no play para ouvir.

Blog Stats

  • 4,831,336 hits

%d blogueiros gostam disto: