Estadão é soldado de Alckmin na guerra contra a escola pública

06/01/2016 at 16:03 4 comentários

É lamentável que um jornal do porte de O Estado de S. Paulo tenha redigido um texto tão frágil e panfletário (editorial “Protesto nada pacífico”, publicado em 31/12/2015), cumprindo um papel lastimável de porta-voz do Governo do Estado, quando deveria, pelo menos, cumprir seu papel informativo e esclarecedor da situação da educação pública na rede estadual paulista. Longe disso, o texto desqualifica o debate a partir de acusações preconceituosas e inconsistentes.

Mesmo sendo um texto jornalístico opinativo, deveria, no mínimo, ter o cuidado de apresentar elementos reais sobre a situação em que se encontra a escola pública estadual paulista. Ao contrário, o texto omite que o governo estadual vem reduzindo o investimento necessário à manutenção e melhoria da qualidade do ensino, como fez aprovando um orçamento para 2016 prevendo uma redução de 1 bilhão de reais com os salários dos profissionais do magistério, além da redução em despesas correntes e investimentos. Em outras palavras, se em 2015 os professores e demais profissionais da educação tiveram reajuste zero, para o ano de 2016 o governo não projeta nenhum alívio. Nem mesmo a reposição da inflação.

A superlotação das salas de aula, que foi um dos fatores que deflagrou a greve dos professores no primeiro semestre de 2015, além de comprometer o processo de aprendizagem, contribui para a expulsão de estudantes das escolas.

A precariedade na estrutura escolar, com a falta de equipamentos adequados, como lousa, giz, data-show, bibliotecas, etc, não aparece, também, no texto como elemento fundamental que levou ao movimento de cobrança por parte dos alunos, professores e comunidade escolar, por mais qualidade de ensino. A ausência de uma gestão transparente com o dinheiro público não foi tão duramente cobrada neste artigo, que despreza as diversas denúncias que vieram à tona durante o processo de ocupação de escolas por parte dos estudantes, quando descobriram caixas e caixas de equipamentos fechadas, que poderiam ser utilizados, mas permaneceram guardados. Materiais como lousas e livros novos, todos encaixotados, equipamentos musicais de fanfarra etc.

Além de não tornar pública a situação de precariedade permanente das escolas públicas estaduais paulistas, o jornal O Estado de São Paulo reforça seu discurso “chapa branca”, reproduzindo informações emitidas apenas pelas fontes oficiais, que apontam “prejuízos estimados em R$ 1 milhão” supostamente decorrentes das ocupações. Ora, se os próprios pais que foram às escolas verificar a situação atestaram o cuidado dos estudantes na manutenção e melhoria dos equipamentos escolares – pintaram paredes, cotaram mato, fizeram jardinagem – no que se sustentam estas acusações?  Por que, afinal, depredariam as escolas que tanto cuidaram durante todo esse período?

Lembremo-nos, mais uma vez, da reunião secreta do Chefe de Gabinete da SEE com os dirigentes de ensino. Ali se faz uma declaração de guerra ao movimento. Nos dias seguintes, todos se recordam, ocorreram episódios de invasões de diversas escolas ocupadas por desconhecidos e também por tropas da PM. Esses fatos, a nosso ver, revelam mais sobre os danos que o Governo alega ter encontrado do que as acusações sem provas que o Estadão levianamente apoia.

Para não prolongar a lista de elementos que foram desconsiderados neste texto, destacamos que no decorrer do ano de 2015 houve um recorde de professores efetivos que pediram exoneração de seus cargos na rede pública estadual. Este movimento é reforçado pela baixa intenção de estudantes que optam pelo magistério como profissão, refletindo todo um processo de desqualificação a que vem sendo submetida esta profissão nas últimas décadas.

É evidente o caráter panfletário deste editorial. Acusa sem provas os estudantes que ocuparam as escolas estaduais de depredações e roubos e afirma que a “A entrada em cena, logo no início das ocupações, de membros da diretoria do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), ligado à CUT, foi outra indicação segura de que as manifestações contra o projeto do governo estavam condenadas a degenerar.”

Esta frase, totalmente desprovida de sentido e sem apoio nos fatos – primeiro porque a APEOESP foi a primeira entidade a questionar o projeto de reorganização da rede pública estadual, apontando suas inconsistências e consequências nefastas, além disso a Apeoesp tem longa tradição de realizar manifestações sem qualquer tipo de confronto ou violência. Este artigo demonstra claramente que o jornal está em sintonia com a estratégia do Governo estadual de tentar “desmoralizar” o nosso sindicato, conforme revelou o áudio da reunião realizada pelo Chefe de Gabinete da Secretaria da Educação com dirigentes de ensino em 29/11, divulgado pela organização Jornalistas Livres.

Devemos lembrar, também, que o jornal recebeu a visita do Governador Geraldo Alckmin nos primeiros dias de dezembro, pouco antes de seu recuo, provocado pela forte rejeição popular ao projeto de reorganização. Esta visita certamente ajuda a explicar a postura do jornal contra o nosso sindicato e contra o movimento do qual participamos.

Mais importante do que o recuo do Governador, para nós, foi a decisão judicial que suspendeu a reorganização e determinou que o Governo do Estado realize em 2016 processo de debates sobre a educação pública estadual, com ampla participação popular. Esta decisão atesta a legitimidade do movimento que a comunidade escolar e os movimentos sociais realizaram em 2015 e continuará neste ano que se inicia.

Que fique claro ao jornal O Estado de S. Paulo, ao Governo do Estado e a tantos quantos estão com ele mancomunados: não nos intimidam. A APEOESP prosseguirá sua luta em defesa da educação pública e dos direitos dos professores e de toda a comunidade escolar, em conjunto com estudantes, pais, funcionários e movimentos sociais. O movimento que impediu o fechamento das escolas foi o primeiro capítulo de uma nova etapa na rede estadual de ensino. A educação pública no estado de São Paulo nunca mais será a mesma.

 

Maria Izabel Azevedo Noronha
Presidenta da APEOESP

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Feliz ano novo! Publicações no jornal Folha de S. Paulo

4 Comentários Add your own

  • 1. professora raquel  |  06/01/2016 às 22:15

    Engraçado vocês apontarem o dedo na cara do Alckmin em relação a redução das verbas na educação e não falarem NADA pela 2x consecutiva (no ano anterior vocês ficaram coniventes) sobre o corte de bilhões proposto e feito pelo governo atual, PT, do grupo da sua coligação.
    Antes de apontarem o dedo nos outros, deem uma olhada no próprio umbigo. Porque não fazem a passeata contra o corte de 10bilhoes na educação realizado pelo governo Dilma? Não farão, porque é do PT e vocês são pau mandado deles.
    A sua moral está tão baixa quanto a lama… hoje temos um sindicato corrompido e que é partidário. Se fosse sério, estaríamos na rua contra o corte proposto pelo PT. Mas fazer o quê? A vida que segue.

    Responder
    • 2. apeoesp  |  07/01/2016 às 13:48

      Prezada professora Raquel,
      Não concordamos com qualquer corte de verbas. Já em julho de 2015 a CNTE,entidade nacional à qual somos filiados, emitiu nota pública contra o corte de verbas em nível federal. Desde então a CNTE vem se pronunciando sistematicamente sobre os cortes de verbas.
      A APEOESP é uma entidade estadual. Embora sejamos críticos aos cortes de verbas nacionais, nossa rede de ensino é estadual e as autoridades que fazem a gestão da educação pública e de nossa vida funcional são estaduais. Por que deveríamos desviar o foco para o cenário nacional, se o governo estadual está cortando verbas? Para poupar o governo Alckmin, pelo qual você nutre simpatias?
      Não vou fazer isso.Estamos sendo atacados aqui e agora pelo Governo do Estado de São Paulo e vamos denunciá-lo, sim. E vamos lutar contra esses ataques. Nada de desviar o foco e enfraquecer a nossa luta, que já é muito dura. Se um dia o governo estadual deixar de nos prejudicar, deixaremos de criticá-lo. Simples assim.
      Bebel

      Responder
  • 3. Igor  |  07/01/2016 às 09:45

    Não tem nada de feliz ano novo! O professor que passou no concurso tem total desvantagem em tudo? Antes eu como O pegava aula, agora como remanescente fico sem? Pelo segundo ano consecutivo? Qual a vantagem em ser aprovado sendo que até alunos estão a nossa frente como prioridades nas atribuições?
    Presidenta, matéria pretensiosa, que tal a gente reclamar do corte de 10,8 bilhões do governo federal?

    Responder
    • 4. apeoesp  |  07/01/2016 às 13:35

      Prezado professor Igor,
      Obviamente seu comentário tem forte viés político. Meu artigo não reclama do corte de verbas federais porque o editorial do Estadão não se refere a isto e não somos parte da rede federal de ensino e sim da rede estadual de São Paulo.
      Em segundo lugar, sua revolta parece se dirigir à instituição errada. As regras do jogo não são feitas por mim, nem pela APEOESP, e sim pelo governo estadual, mas você está reclamando de meu texto, que justamente critica o governo estadual. Não dá pra entender.
      Outra coisa que não dá pra entender é que você afirma que estava conseguindo aulas e agora não. Ora, se você conseguiu aulas como remanescente do concurso, com contrato de categoria O,seu contrato deveria estar em vigor e,portanto, automaticamente prorrogado pela nova lei. Então, não estou entendendo sua afirmação de que a situação piorou para você.
      Finalmente, não estou entendendo porque você diz que alunos estão na sua frente na classificação.de que se trata? Novas contratações estão suspensas, logo, se algum estudante conseguir aulas, é porque já está com contrato em vigor.
      Bebdel

      Responder

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