Para reflexão

16/07/2016 at 14:31 8 comentários

Como assim, escola sem ideologia?

O Estado de S. Paulo – 16/7/2016 – CULTURA

MARCELO RUBENS PAIVA

A escola sem um professor de história de esquerda é como uma escola sem pátio, sem recreio, sem livros, sem lanchonete, sem ideias. É como um professor de educação física sem uma quadra de esportes, ou uma quadra sem redes, ou crianças sem bola.

O professor de história tem que ser de esquerda. E barbudo. Tem que contestar os regimes, o sistema, sugerir o novo, o diferente. Tem que expor injustiças sociais, procurar a indignação dos seus alunos, extrair a bondade humana, o altruísmo.

Como abordar o absolutismo, a escravidão, o colonialismo, a Revolução Industrial, os levantes operários do começo do século passado, Hitler e Mussolini, as grandes guerras, a guerra fria, o liberalismo econômico, sem uma visão de esquerda?

A minha do colegial era a Zilda, inesquecível, que dava textos de Marx Webber, do mundo segmentado do trabalho. Ela era sarcástica com a disparidade econômica e a concentração de renda do Brasil. Das quais nossas famílias, da elite paulistana, eram produtoras.

Em seguida, veio o professor Beno (Benauro). Foi preso e torturado pelo DOI-Codi, na leva de repressão ao PCB de 1975, que matou Herzog e Manoel Fiel Filho. Benauro era do Partidão, como nosso professor Faro (José Salvador), também preso no colégio. Eu tinha 16 anos quando os vimos pelas janelas da escola, escoltados por agentes.

Outro professor, Luiz Roncari, de português, também fora preso. Não sei se era do PCB. Tinha um tique nos olhos. O chamávamos de Luiz Pisca-Pisca. Diziam que era sequela da tortura. Acho que era apenas um tique nervoso. Dava aulas sentado em cima da mesa. Um ato revolucionário.

Era muito bom ter professores ativistas e revolucionários me educando. Era libertador.

Não tem como fugir. O professor legal é o de esquerda, como o de biologia precisa ser divertido, darwinista e doidão, para manter sua turma ligada e ajudar a traçar um organograma genético da nossa família. A base do seu pensamento tem de ser a teoria da evolução. Ou vai dizer que Adão e Eva nos fizeram?

O de química precisa encontrar referências nos elementos que temos em casa, provar que nossa cozinha é a extensão do seu laboratório, sugerir fazer dos temperos, experiências.

O professor de física precisa explicar Newton e Einstein, o chuveiro elétrico e a teoria da relatividade e gravitacional, calcular nossas viagens de carro, trem e foguete, mostrar a insignificância humana diante do colossal universo, mostrar imagens do Hubble, buracos negros, supernovas, a relação energia e massa, o tempo curvo.

Nosso professor de física tem que ser fã de Jornada nas Estrelas. Precisa indicar como autores obrigatório Arthur Clarke, Philip Dick, George Orwell. E dar os primeiros axiomas da mecânica quântica.

O professor de filosofia precisa ensinar Platão, Sócrates e Aristóteles, ao estilo socrático, caminhando até o pátio, instalando-se debaixo de uma árvore, sem deixar de passar pela poesia de Heráclito, a teoria de tudo de Parmênides, a dialética de Zenão. Pula para Hegel e Kant, atravessa o niilismo de Nietzsche e chega na vida sem sentido dos existencialistas. Deixa Marx e Engels para o professor de história barbudo, de sandália, desleixado e apaixonante.

O professor de português precisa ser um poeta delirante, louco, que declama em grego e latim, Rimbaud e Joyce, Shakespeare e Cummings, que procura transmitir a emoção das palavras, o jogo do inconsciente com a leitura, a busca pela razão de ser, os conflitos humanos, que fala de alegria e dor, de morte e prazer, de beleza e sombra, de invenção fingimento.

O de geografia precisa falar de rios, penínsulas, lagos, mares, oceanos, polos, degelo, picos, trópicos, aquecimento, Equador, florestas, chuvas, tornados, furacões, terremotos, vulcões, ilhas, continentes, mas também de terras indígenas, garimpo ilegal, posseiros, imigração, geopolítica, fronteiras desenhadas pelos colonialistas, diferenças entre xiitas e sunitas, mostrar rotas de transação de mercadorias e comerciais, guerra pelo ouro, pelo diamante, pelo petróleo, seca, fome, campos férteis, civilização.

A missão deles é criar reflexões, comparações, provar contradições. Provocar. Espalhar as cartas de diferentes naipes ideológicos. Buscar pontos de vista.

O paradoxo do movimento Escola Sem Partido está na justificativa e seu programa: “Diante dessa realidade – conhecida por experiência direta de todos os que passaram pelo sistema de ensino nos últimos 20 ou 30 anos –, entendemos que é necessário e urgente adotar medidas eficazes para prevenir a prática da doutrinação política e ideológica nas escolas, e a usurpação do direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções”.

Mas como nasceriam as convicções dos pais que se criariam num mundo de escolas sem ideologia? E que doutrina defenderiam gerações futuras?

A escola não cria o filho, dá instrumentos. O papel dela é mostrar os pensamentos discordantes que existem entre nós. O argumento de escola sem ideologia é uma anomalia de Estado Nação.

Uma escola precisa acompanhar os avanços teóricos mundiais, o futuro, melhorar, o que deve ser reformulado. Um professor conservador proporia manter as coisas como estão. Não sairíamos nunca, então, das cavernas.

Anúncios

Entry filed under: Artigos.

Investigação na Secretaria Estadual da Educação Entrevista para o Jornal da Record News sobre “escola sem partido”

8 Comentários Add your own

  • 1. Leonel  |  16/07/2016 às 15:03

    E Sociologia? ficou de fora porque?

    Responder
  • 2. Maria Bernadete Garcia Ferreira de Almeida  |  17/07/2016 às 01:44

    Amei o texto, e creio em uma escola que mostre sempre os vários lados, os pós e os contras, os caminhos e os descaminhos para chegarem ao destino esperado por cada cidadão…

    Responder
  • 3. proeducblog  |  17/07/2016 às 15:31

    Na minha, de outro, tinha grêmio, que por ser reprimido era bastante contestador. Hoje tem e a direção, segundo os boatos, foram orientadas a nomearem a diretoria do grêmio. Tudo isso pq dizem eles não sabem escolher e em nome da ordem.

    Responder
  • 4. Edgard  |  18/07/2016 às 23:58

    escola sem ideolgogia de esquerda e também de direita. Fora o proselitismo político

    Responder
  • 5. Edgard  |  18/07/2016 às 23:59

    Escola sem proselitismo político.

    Responder
    • 6. Luiz Felipe  |  23/07/2016 às 18:17

      Escola sem proselitismo político?? Você deve estar falando das escolas da elite, certo? Se seu comentário está direcionado ao ensino público existe um imenso equívoco reacinha nas suas palavras. Escola é um campo livre para o debate. A nossa direitinha conservadora não se envolve com a massa, têm pouquíssimos “pensadores” na rede pública e , esta sim, quer impor algo a nossa sociedade. Golpe por todos os lados.

      Responder
      • 7. Luiz  |  03/08/2016 às 14:03

        Caro colega,
        Estou já calejado com esse discurso de meus colegas na sala de professores. Campo livre para debates? Por favor, aponte um colega nosso professor que pensa de maneira diferente da sua, um “reacinha, direitnha conservadora” que não seja ridicularizado por colegas que pensam como você. O problema das pessoas que pensam mais à esquerda aqui no Brasil é justamente esse. Não aceitam que possam existir pessoas que não pensem como eles e, como Robespierre morreu faz tempo, então procuram ridicularizá-los. É o que você colega fez em seu comentário.

  • 8. Luiz  |  03/08/2016 às 13:56

    Profa.Maria Izabel,
    É claro que não faz sentido esse negócio de “escola sem partido”. Agora, a senhora, como os educadores do artigo posterior, Marcelo Rubens Paiva, etc., só estão sendo contra porque a grande atacada é a ideologia de esquerda. Fosse a ideologia de direita a atacada, todos seriam a favor. E o Marcelo Rubens Paiva, que omite em seu artigo as atrocidades dos regimes de esquerda, maliciosamente “se esquecendo” de citar Stalin, Pol Polt e Mao Tse Tung, carniceiros como Hitler e Mussolini, comete um erro gravíssimo ao dizer que professor de história tem que ser de esquerda. Um professor de história esquerdista vai mesmo – é a natureza ideológica dele- omitir Stalin, Mao e Pol – e vai saudar Robespierre ( o grande purificador esquerdista, o grande “cabeleireiro” cortador de cabelos e cabeças) como herói. O homem que mandou o cientista Lavoisier para a guilhotina.

    Não, um professor de história não tem de ser de esquerda, ele tem que ser professor de História. Ensinar essa tão rica disciplina á luz dos fatos e não da ideologia. O que Marcelo Rubens Paiva quer dizer mesmo é que uma pessoa com pensamento à direita não pode ser professor de história (nem de outra disciplina) pois vai ensinar a disciplina com vício. Uma pessoa à esquerda não vai ensinar com vício? No fundo, para ele, pessoas com pensamento à direita devem ser caladas. Tão democrático ele, não…(algo que, infelizmente, vejo nos artigos da senhora também.).

    Entendo o rancor dele, a direita no Brasil é tosca, retrógrada (pois ser conservador é diferente, já que o que é bom deve ser conservado), autoritária e foi responsável por um período de tortura brutal.Mas daí dizer que toda a direita é isso? Podemos enumerar regimes de esquerda piores que nossa ditadura militar.

    Quanto à “escola sem partido”, claro que é um erro, Como é um erro grave – que é cometido inclusive pela senhora – querer proibir que os professores não possam expressar suas convicções religiosas nas salas de aula. Devemos ser coerentes: se deve haver liberdade para damos nossa visão da disciplina á luz de nossa ideologia, essa liberdade deve valer também para as convicções religiosas, de comportamento, etc. E hoje essa incoerência só vejo claramente em meus colegas que pensam à esquerda; nada democráticos, por sinal. Vejo0 isso todo dia.

    O Brasil não é apenas laico; é apartidário também.

    E para terminar, a senhora e a maioria das pessoas com pensamento à esquerda só estão dizendo que impeachment é golpe por que é uma pessoa à esquerda que está sofrendo tal processo. Fosse o Aécio presidente e tivesse feito tudo aquilo, teríamos nossa presidente sindical, a Apeoesp, Marcelo Rubens Paiva, etc, apoiando a legalidade do processo; e o PSDB/DEM gritando “golpe!”. Vá entender esse dualismo pueril.

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Mensagem da Presidenta da APEOESP às professoras

Clique no play para ouvir.

Blog Stats

  • 4,804,952 hits

%d blogueiros gostam disto: