A SERVIÇO DO GOLPE, REVISTA VEJA DECLARA GUERRA AOS PROFESSORES

29/07/2016 at 14:57 14 comentários

Se existem pessoas com dúvidas sobre a extensão e finalidades do golpe em curso no Brasil, a leitura do artigo Professor ganha mal?, de autoria de Claudio de Moura Castro, publicado na revista Veja de 27 de julho, ajuda a entender o que está por vir se o Governo golpista de Michel Temer for mantido no poder.

Este artigo não vem por acaso. Está sintonizado com as medidas que o Governo interino vem tomando em relação à educação brasileira. Mesmo em uma revista como Veja, notoriamente desqualificada e desqualificadora, o que lemos é totalmente descabido e enojante.

O senhor Claudio de Moura Castro, como os demais adversários dos professores e da educação não conhece nem vivencia a realidade da escola pública e não tem compromisso com a maioria da população. Para ele o professor não precisa ser bem remunerado para ministrar aulas de qualidade.

Querem acabar com o Piso Salarial Profissional Nacional
No momento em que o Presidente interino Michel Temer, Governadores e Prefeitos descompromissados com a educação atacam o Piso Salarial Profissional Nacional (uma conquista de dois séculos de lutas dos professores sancionada pelo ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva), o articulista da Veja diz que os salários da categoria “são até competitivos”, se comparados com outras profissões. Ele envereda pela conhecida cantilena da existência de “bons” e “maus” professores (como se os resultados da aprendizagem dos estudantes dependessem única e exclusivamente de qualidades intrínsecas a cada professor e professora), o que casa como uma luva na proposta de Temer de instituir uma espécie de “bônus” nacional para substituir a piso salarial. Ocorre que bônus não se incorpora aos salários e nos proventos da aposentadoria. Os professores, que já recebem salários baixíssimos, teriam aposentadorias ainda mais miseráveis.

O professor ganha mal!
A argumentação do artigo ataca também a meta 17 do Plano Nacional de Educação (contemplada no Plano Estadual de Educação de São Paulo e de demais Estados e Municípios), pela qual o professor deve receber remuneração equivalente à dos demais profissionais com formação de nível superior.
Estudos realizados em 2015 pela subseção do DIEESE na APEOESP indicaram que a defasagem da média salarial dos professores no estado de São Paulo em relação aos demais profissionais com formação de nível superior era de 75,33%. Em nível nacional, considerando as diferentes bases salariais, nos diferentes entes federados, a defasagem é hoje superior a 50%. Os dados, portanto, contradizem o artigo da Veja.

Não há o que tergiversar: o professor brasileiro ganha muito mal. Mais ainda quando consideramos o seu papel social. O professor não é qualquer profissional na nossa sociedade: ele forma todos os demais profissionais. Médicos, engenheiros, físicos, economistas, jornalistas e todos os profissionais com formação adequada passaram pelos bancos escolares. Nossa profissão, além disso, é uma das mais desgastantes, sobretudo nas escolas públicas. Como, então, podem ser considerados “privilégios” direitos devidos a uma categoria com tamanha responsabilidade social, mal remunerada e submetida a duríssimas condições de trabalho no nosso país?

Retomando a linha que vigorou durante o Governo do ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso e ainda vigora no estado de São Paulo, o artigo culpabiliza exclusivamente os professores pelas deficiências de aprendizagem dos estudantes. Como não é educador, não conhece a escola pública e não possui conhecimento suficiente sobre educação, o autor ignora que sistemas de avaliação como o PISA, o ENEM e até mesmo o SARESP já incorporam ou consideram incorporar variáveis sócioeconômicas relacionadas às comunidades nas quais as escolas estão inseridas e também dados sobre as condições estruturais das unidades escolares; sobre as políticas educacionais vigentes; entrevistas com professores, estudantes e pais e outros fatores que interferem no rendimento escolar.

Veja ataca professores e defende os privilegiados
Realizando uma verdadeira criminalização dos direitos do professor, o artigo de Veja investe contra a nossa aposentadoria especial, outro alvo dos ataques de Michel Temer. Este direito foi uma conquista da nossa categoria e será defendida ferrenhamente defendida. Após 25 anos de trabalho em salas de aula superlotadas, sem condições ambientais, em escolas marcadas pela violência, autoritarismo dos gestores e baixo rendimento escolar em consequência de fatores aos quais me referi anteriormente, a aposentadoria especial é uma necessidade real e uma obrigação do Estado e da sociedade para as professoras e os professores. Por que o autor não critica, por exemplo, o Presidente interino Michel Temer, que se aposentou como Procurador do Estado aos 55 anos e percebe um rendimento superior a R$ 30 mil mensais dos cofres públicos?

Sem argumentos sólidos para desqualificar os profissionais da educação pública, ele utiliza uma conta maluca, na qual considera todos os direitos potenciais de um professor (muitos deles inalcançáveis para a maior parte da nossa categoria), para forçar a conclusão de que um professor trabalha apenas 19 anos até se aposentar!. Em outro cálculo mentiroso, onde mistura licenças para cursos de mestrado e doutorado com candidaturas a vereador e licenças-maternidade, o inacreditável senhor chega a dizer que um professor poderá se aposentar após trabalhar apenas 11 anos e meio!!

Desvalorização causa adoecimento
Como tantos outros neoliberais, o autor do artigo repete como um mantra que os professores adoecem e faltam muito. Sim, é verdade, somos uma categoria adoecida. Nossas pesquisas apontam que boa parte dos professores são afastados do trabalho por problemas emocionais, doenças respiratórias, estresse, problemas nas cordas vocais e outras doenças profissionais, ou seja, diretamente resultantes de seu trabalho duro, cotidiano, desgastante nas salas de aula. O que propõe o senhor Claudio de Moura Castro? Prevenção, melhores condições de trabalho, humanização dos espaços escolares, políticas de valorização profissional? Não. Propõe arrocho e corte de direitos.

De qualquer ponto de vista que se olhe o artigo é uma declaração de guerra aos professores e professoras e a toda a comunidade das escolas públicos do nosso país. Ele está perfeitamente articulado a uma política que visa o corte de gastos na educação e demais áreas sociais, como apontam as medidas que encaminhadas pelo Governo interino ao Congresso Nacional. Fique claro, portanto, que estamos no campo de batalha e não nos deixaremos derrotar.

Maria Izabel Azevedo Noronha
Presidenta da APEOESP

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14 Comentários Add your own

  • 1. Flávio  |  30/07/2016 às 02:45

    boa noite bebel
    o governo abaixou de 25% para 10,5% o indice de aumento na prova do merito, é possivel uma ação judicial para readequação uma vez que ocorre ai um desfavorecimento, é a primeira vez que passo nessa prova, poderia ser alegado como justificativa ao menos no caso da primeira prova esse desfavorecimento?

    Responder
    • 2. apeoesp  |  30/07/2016 às 11:59

      Prezado professor Flávio,
      Não. Isto já ocorreu há anos atrás e está superado. Pode ser injusto, mas não ilegal. Paea mais informações, ligue para 11.33506214.
      Bebel

      Responder
  • 3. Flávio  |  30/07/2016 às 02:48

    boa noite bebel
    ainda é possivel mandado de segurança individual para aplicação da lei 1/3 fora da sala de aula

    Responder
    • 4. apeoesp  |  30/07/2016 às 11:58

      Prezado professor Flávio,
      Sim. Procure o departamento jurídico.
      Bebel

      Responder
  • 5. jorge (@89nuncamais)  |  30/07/2016 às 13:02

    Tomara que o golpista Faça tudo isso que a Veja e Globo propõem.
    Muitos professores gritaram Fora DIlma tomem KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK Via em frente Temer, eles pediram

    Responder
  • 6. Vanda  |  30/07/2016 às 19:08

    Boa Tarde! Gostaria de saber se o diretor pode mudar o horário do corpo docente no curso regular na volta do recesso sem a concordância do professor.

    Responder
    • 7. apeoesp  |  07/08/2016 às 12:38

      Prezada professora Vanda,
      Na realizada, todas as decisões deveriam passar pelo conselho de escola. Por favor, procure o departamento jurídico ou ligue para 11.33506214. O diretor tem prerrogativas, mas defendemos o direito de escolha do professor.
      Bebel

      Responder
  • 8. Vanessa  |  31/07/2016 às 15:27

    Bebel, eu trabalho em escola do estado e na prefeitura de São Paulo, e o meu acúmulo é legal, conforme publicado no DO.
    Dia 29/07 houve convocação na escola do estado para fazer planejamento no período da manhã, mas eu trabalho na prefeitura de São Paulo nesse horário. A direção da escola me impediu de cumprir o meu horário à tarde, que é o meu horário de trabalho no estado. Apesar de a escola ficar aberta até às 17h, eu não pude cumprir o horário, e recebi falta.

    Eu me sinto muito prejudicada, a direção da escola me disse que é problema meu eu não ter ido de manhã. O que fazer? Isso está dentro da legalidade?

    Responder
    • 9. apeoesp  |  07/08/2016 às 12:35

      Prezada professora Vanessa,
      Infelizmente, receio que sim, pois o acumulo legal faz a ressalva da compatibilidade de horários. Entretanto, seu caso requer bom senso por parte da diretora e, portanto, creio que vale a pena insistir. Procure o departamento jurídico na subsede e verifique o que pode ser feito.
      Bebel

      Responder
  • 10. Vera Lúcia  |  31/07/2016 às 17:14

    Bom dia, Bebel,
    Em relação ao mestrado que a revista Veja menciona, tenho um comentário.
    Fiz mestrado, mas na minha ficha está considerando como afastamento mesmo tendo trabalhado na D.E.(oficina pedagógica). Porém, em quando pedi aposentadoria já tendo 25 anos incluindo o tempo mestrado, a D.E. disse que não poderia como especial e teria que repor este tempo. Também, cabe comentar que quando fiz o mestrado na lei não mencionava nada disto.
    Em março/2015 entreguei na Apeoesp(Pça República) documentos para enviar ao setor aposentadoria para ação individual quanto as licenças que já repus e o tempo de mestrado, mas até agora nada.
    Se considerar todo o tempo, já deveria estar aposentada; mas ainda tenho que continuar a trabalhar e como a saúde não está sempre boa, necessito sair de licença.
    Enfim, o governo concedeu um benefício, mas quer descontar depois? Isto está certo?

    Responder
    • 11. apeoesp  |  07/08/2016 às 12:33

      Prezada professora Vera Lucia,
      Por favor, envie seus dados para presiden@apeoesp.org.br para que eu possa verificar o andamento de seu processo.
      Quanto ao desconto das licenças, ingressamos na justiça, porém não conseguimos a liminar e o governo pode continuar descontando.
      Bebel

      Responder
  • 12. Thiago  |  01/08/2016 às 12:18

    Professora Bebel
    percebi que o secretario não pagou o montante retroativo, assim como havia declarado em reunião anterior….Alguma informação?

    Responder
    • 13. apeoesp  |  07/08/2016 às 12:26

      Prezado professor Thiago,
      O retroativo está sendo pago em folha suplementar.
      Bebel

      Responder
  • 14. Alex  |  03/08/2016 às 14:03

    Aposentadoria após 2 mandatos (oito anos) é que deveria ser avaliado pela matéria. Ataques e mais ataques a nossa classe e vemos a situação piorar a cada dia. Lamentável ter que ler certas coisas. Dias tenebrosos…

    Responder

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