Um ensino menos qualidade de acordo com a classe social, cor e credo?

04/10/2016 at 14:16 4 comentários

Estarrecedora a entrevista à revista Veja da Secretária Executiva do Ministério da Educação (ex-Secretária da Educação de São Paulo, demitida pelo então Governador Serra) sobre a reforma do ensino médio.
Em um dos trechos ela diz:
“O que estamos propondo – a flexibilização de uma parte do tempo do aluno na escola – bate de frente com uma ideia incrustada no caldo cultural da academia brasileira, que reverbera por toda a sociedade. É a ideia de que todo mundo tem direito ao mesmo ensino, independentemente de classe social, cor, credo. Esse discurso soa inclusivo, mas trata-se aqui de uma pseudoigualitarismo.”
Se é verdade que para assegurar a igualdade, devemos tratar desigualmente os desiguais, atendendo suas necessidades específicas, isto deve ser feito para garantir-lhes mais qualidade de ensino e não menos. Entretanto, o que faz a reforma que está sendo proposta, cujo foco é a educação pública, é outra coisa: a seleção dos componentes curriculares pelos sistemas de ensino, com a flexibilização de 50% do currículo, no qual apenas Português, Matemática e Língua Estrangeira (Inglês) seriam obrigatórias em todos os anos, vai piorar ainda mais a formação de nossos estudantes.
A virtual retirada de disciplinas como Sociologia, Filosofia, Artes e, também, Educação Física – que, na melhor das hipóteses, podem ser “flexibilizadas” ao ponto de sumirem do currículo – representaria a vitória da “escola sem partido”, que pretende justamente retirar todos os conteúdos curriculares que facilitem o debate e a reflexão nas nossas escolas.
Se esta reforma passar, oficializar-se-á o apartheid educacional no Brasil. Educação de qualidade para a elite; educação aligeirada, com viés tecnicista, para os filhos e filhas da classe trabalhadora. Este é o conceito de inclusão social do Governo Temer.
Maria Helena Guimarães de Castro defende a reforma pela via da Medida Provisória porque, segundo ela, “há urgência” e o assunto já vem sendo debatido “há duas décadas”. Esta reforma foi debatida com quem? Sim, é verdade, no Estado de São Paulo os tucanos tentaram impor esta reforma em 2000, com a Secretária Rose Neubuaer. Nossa greve a derrotou. Em 2015, novamente, o Secretário Herman Voorwald pretendeu impor o “currículo a la carte”, bem parecido com o que agora está sendo proposto. Fomos à luta e o derrotamos. Ele então embutiu a reforma na proposta de Plano Estadual de Educação encaminhada à Assembleia Legislativa. De novo, nos mobilizamos e fizemos retirar a meta 22 da proposta de PEE do Governo Estadual, já na gestão do atual Secretário da Educação, José Renato Naline.
Esta reforma é rejeitada pelos educadores, pais, estudantes e pela sociedade de forma geral. No momento, a enquete que o Senado Federal abriu na internet sobre a MP 746/2016 aponta com clareza: 2.970 pessoas favoráveis à reforma e 64.492 pessoas contra. Precisa dizer mais alguma coisa?
Por isso, nesta quarta-feira, 5/10, uma caravana de professores da APEOESP estará em Brasília para somar-se a caravanas de todo o Brasil e dizer ao Congresso Nacional que não aceitamos esta reforma, assim com não aceitamos os demais retrocessos promovidos pelo Governo ilegítimo de Temer.

Anúncios

Entry filed under: Artigos.

Contra a reforma do ensino médio Atenção: conveniados UNIMED

4 Comentários Add your own

  • 1. Prof. Clóvis  |  04/10/2016 às 20:50

    Com tanta paulada que estamos levando temos que reagir com urgência, está será a nossa principal meta no Congresso. A atuação do governo de São Paulo é de uma verdadeira Ditadura, estamos acostumados e não podemos deixar o discurso que a luta contra os golpistas acabou (na eleição) tomar conta da nossa categoria. Aproveitando preciso levar informações para os professores da UE onde sou RE sobre como ficaram as reposições dos dias de paralisação em agosto e setembro.

    Responder
    • 2. apeoesp  |  08/10/2016 às 13:56

      Prezado professor Clóvis,
      A reposição do dia 26/08 já é possível. O comunicado da CGRH já seguiu para diretorias regionais e escolas. A de 22/9 ainda está sendo negociada.
      Bebel

      Responder
  • 3. ana  |  05/10/2016 às 20:16

    Olá Bebel.Boa tarde!!!
    Gostaria de saber um pouco sobre a inclusão .A informação que temos é:

    1) “As turmas que têm alunos com deficiência devem ser menores?
    Sim, pois grupos pequenos (com ou sem alunos de inclusão) favorecem a aprendizagem. Em classes numerosas, os professores encontram mais dificuldade para flexibilizar as atividades e perceber as necessidades e habilidades de cada um”.

    SITE:http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/serie4.pdf

    2) É garantido serviço de apoio especializado, na escola pública regular, para atender ao aluno portador de deficiência? Sim. Conforme determina o § 1º, do art. 58 da Lei Federal nº 9.394/96, o Poder Público, havendo necessidade, é obrigado a equipar a escola, visando o eficaz atendimento da pessoa com deficiência.

    3) A LDB 9394/96 definiu a Educação Especial como uma modalidade de educação escolar que permeia todas as etapas e níveis de ensino e a Resolução„o do CNE 02/2001 regulamentou seus artigos 58, 59 e 60, garantindo aos alunos com necessidades educacionais especiais o direito de acesso e permanência no sistema regular de ensino. Entendemos que o paradigma da inclusão„o desses alunos implica a reestruturação dos sistemas de ensino, a partir da qualificação (capacitação) dos professores, viabilizando a reorganização escolar de modo a assegurar aos alunos as condições de acesso e, principalmente, de permanência, com sucesso, nas classes comuns.

    Mas não vemos nada disso.As classes estão cheias. Na escola onde trabalho as salas tem 35 alunos, para uma turma de 6ºano
    indisciplinados. Como conseguir dar atenção para 1 aluno que necessita de um currículo adaptado??Posso estar falando bobagem,mas já perguntei a outros professores e todos desconhecem este currículo adaptado para área de matemática.E agora nos obrigam a preencher um formulário semanalmente relatando a forma trabalhada, sem se quer alguém ter aparecido a escola para maiores orientações.Cadê a reestruturação do sistema??A qualificação aos professores???Cade as turmas menores.
    Não quero que me entenda que alunos com necessidades especiais não deveria frequentar a escola regular, pelo contrário concordo com a inclusão, mas deveríamos ser capacitados para isso, pois me sinto excluindo – os no momento que entro em sala e não consigo dar atenção devida.Obrigado pelo espaço e desculpe pelo desabafo.

    Responder
    • 4. apeoesp  |  09/10/2016 às 16:12

      Prezada professora Ana,
      Você tem toda a razão. A inclusão pressupõe respeito pela criança e pelo professor. Nós queremos inclusão com condições estruturais, com condições pedagógicas, com qualidade. Está em nosso horizonte um encontro específico para discutir a educação inclusiva e formular nossas reivindicações. No nosso congresso, em novembro, teremos um tópico nas resoluções sobre esta questão.
      Bebel

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Mensagem da Presidenta da APEOESP às professoras

Clique no play para ouvir.

Blog Stats

  • 4,856,811 hits

Comentários

apeoesp em
apeoesp em

%d blogueiros gostam disto: