A violência cotidiana nas escolas estaduais

26/06/2017 at 17:11 Deixe um comentário

Tomei conhecimento de mais um lamentável e inaceitável incidente ocorrido em uma escola da rede estadual. Desta vez o carro da Professora Coordenadora da Escola Estadual Professora Vânia Aparecida Cassará, em Mogi das Cruzes, foi incendiado por um estudante da própria escola no dia 23 de junho, sexta-feira. Manifesto, neste momento, toda a nossa solidariedade para com a professora, colocando, como já vem ocorrendo, a APEOESP à sua disposição para o que for necessário. Na próxima reunião que mantivermos com o Secretário da Educação, vamos tratar novamente da questão da violência e cobrar soluções.
Muitos outros casos vem ocorrendo na mesma região e em todo o estado de São Paulo. Há muitos anos a APEOESP desenvolve uma campanha permanente contra a violência nas escolas e mantém no seu portal na internet (www.apeoesp.org.br) o Observatório da Violência, que publica denúncias e informações sobre casos de violência que ocorrem em nossas escolas. Em todas as oportunidades, temos denunciado esta situação aos meios de comunicação, publicamos textos sobre o assunto e participamos de reportagens a respeito do tema.
A APEOESP realizada pesquisas, não apenas na própria categoria, mas também junto a pais e estudantes, buscando detectar as origens do problema, como essa violência ocorre, as providências eventualmente tomadas pelas escolas e pelo Estado e as opiniões da comunidade sobre o que deveria ser feito. Já realizamos seminários, webconferências, publicamos trabalhos e sempre programamos em nossos congressos e conferências debates sobre este problema.
O fato é que sucessivos governos estaduais pouco ou nada contribuíram para resolver esta situação. Ao contrário, ela vem se agravando a cada dia, sem que medidas preventivas sejam tomadas. Para nós, antes da repressão, vem a prevenção. É necessário que o Governo do Estado garanta nas escolas servidores preparados para lidar com essas situação (e sobretudo para desenvolver um trabalho preventivo).
Não é o que ocorre. O número de funcionários concursados nas escolas vem caindo cada vez mais e, em seu lugar – e ainda em número insuficiente – são contratados trabalhadores terceirizados, que não possuem ligações com a comunidade e com o projeto pedagógico da escola e, portanto, pouco ajudam neste processo.
O caso ocorrido na EE Professora Vânia Aparecida Cassará infelizmente será mais um nas estatísticas do Estado. É preciso que a comunidade exija soluções, tomando esta luta para si, por meio do efetivo funcionamento dos conselhos de escola, que devem formular e gerir o projeto pedagógico da escola, o que passa por assegurar junto ao Estado condições de trabalho e de segurança para todos e todas no interior das escolas públicas.
Pesquisa realizada pela APEOESP em 2013 revelou que, naquela época, 4 em cada 10 professores já haviam sido vítimas de algum tipo de agressão dentro de suas escolas. Não há indício de que esta situação tenha melhorado. Programas importantes, como o do professor mediador de conflitos, em vez de serem aperfeiçoados e ampliados, são esvaziados pelo Governo do Estado.
Nós queremos uma escola de paz, onde professores, estudantes, funcionários, pais e toda a comunidade possam conviver de forma harmônica e que o processo ensino-aprendizagem ocorra de forma produtiva e agradável. Um espaço onde a pluralidade, o respeito mútuo e o debate de ideias e concepções fortaleçam a transmissão e construção do conhecimento.
A violência é mais uma forma de exclusão, pois afasta crianças e jovens da vida escolar. A escola tem que ser um local prazeroso para estudantes e professores, mas está se tornando um espaço perigoso. É preciso investimento, infraestrutura adequada, currículo que atenda às necessidades e expectativas dos estudantes e gestão democrática, para não tenhamos que lamentar tantas ocorrências e tanta dor em nossas unidades escolares.
Maria Izabel Azevedo Noronha
Presidenta da APEOESP
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