Escola sem partido, mas com religião?

28/09/2017 at 14:10 5 comentários

“Arautos do Evangelho” na Escola Estadual Fernão Dias, em São Paulo – junho de 2016

Em tempos de “escola sem partido” – uma tentativa de impedir o livre debate de ideias e concepções pedagógicas nas nossas escolas para impor uma única ideologia – a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) permitindo que as aulas de ensino religioso nas escolas de educação básica sejam ministradas com base em um único credo, libera o proselitismo de uma determinada religião aos estudantes e representa um grande retrocesso e a desconstituição de um avanço histórico da sociedade, que foi a separação entre Igreja e Estado.

A laicidade do Estado e, portanto, da educação pública, é uma necessidade da democracia e da formação dos nossos estudantes de acordo com princípios humanistas, para prepará-los ao exercício pleno da cidadania, para a continuidade dos estudos, para o mundo do trabalho, enfim, para a vida.

A religião que cada de nós professa ou a decisão de não professor religião alguma é uma decisão de foro íntimo, definida a partir da influência da família, dos amigos e das relações pessoais; nada tem a ver com a esfera pública, com o Estado e com o ensino regular ministrado nas escolas públicas.

A separação entre a Igreja e o Estado no Brasil data da proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, e todas as nossas Constituições a mantiveram desde então. Na prática, a decisão do STF quebra esta separação.
Pretenderia o Supremo Tribunal Federal estabelecer a partir de agora no espaço escolar uma disputa entre as diferentes religiões pela primazia de doutrinar nossos estudantes? Voltaríamos a permitir uma educação catequizadora, como aquela praticada pelos padres jesuítas junto aos povos originários no início da colonização brasileira? Qual religião terá a preferência de nossos governantes para a realização desta doutrinação? A escolha recairá sobre a religião que cada Prefeito, Governador ou Presidente da República professar, alterando-se esta escolha de acordo com a alternância dos mandatos? Os professores terão, neste caso, que ser doutrinados em primeiro lugar, para que possam doutrinar os estudantes? Padres, pastores, rabinos e outros sacerdotes poderão ocupar o lugar dos professores nas aulas de ensino religioso?

A decisão cria uma situação tal que nos permite imaginar uma hipotética disputa entre o Bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, e o Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, junto ao Governador de São Paulo e aos 645 prefeitos e prefeitas para definir qual das instituições religiosas atuará no maior número de unidades escolares. Podemos imaginar todo tipo de disputa entre os credos. Entre os cristãos, um insólito debate – em se tratando de um espaço escolar – entre as concepções de Cristo com um ser sobrenatural ou como um revolucionário para a sua época, como defendem alguns grupos, entre elas os adeptos da Teologia da Libertação.

Preocupa-nos não apenas esta disputa entre religiões majoritárias, mas também possíveis discriminações a credos de matriz africana (como o candomblé e a umbanda). Mais que um ataque a essas religiões, representa também um ataque a uma etnia, já majoritária no Brasil. Os praticantes de outras religiões, como o islamismo, o budismo, o judaísmo podem vir a ser alvo de intolerância e preconceitos no ambiente escolar, considerando este clima de disputa que certamente irá se estabelecer.

Na minha opinião, o ensino religioso, inserido e articulado ao projeto político-pedagógico da escola, não deve permitir ou incentivar este tipo de disputa ou doutrinação. Deve pautar-se pelo estudo e compreensão da história das religiões, o significado e o papel de cada uma no desenvolvimento das civilizações humanas, a realização de estudos sobre a Bíblia, o Corão, a Torá e outros livros religiosos para compreendê-los em seus contextos históricos, filosóficos, sociológicos e até mesmo políticos, sem qualquer tipo de preconceito e discriminação e sem desrespeitar nenhuma religião.

Como disse anteriormente, a escolha da religião que irá seguir ou decisão de não professar nenhuma delas é uma escolha individual de cada estudante e não deve ser determinada pela escola ou pelo Estado.

Como pessoa que professa a religião católica, como cidadã e como Presidenta do maior sindicato de professores do Brasil e um dos maiores do mundo, não me furtarei a este debate e continuarei a manifestar claramente meu ponto de vista.

Juntamente com a toda a diretoria da APEOESP, seus conselheiros e representantes de escolas, promoveremos o diálogo com a nossa categoria e com as comunidades escolares para que compreendam o grande retrocesso que esta decisão representa, no sentido de que todos lutemos para revertê-la.

Maria Izabel Azevedo Noronha – Bebel
Presidenta da APEOESP

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Todos contra a violência e o abandono das escolas estaduais

5 Comentários Add your own

  • 1. Terezinha Almeida  |  28/09/2017 às 22:19

    Importantíssimo que os nossos alunos saibam um pouco mais sobre quem é Deus e que a fé pode ajudar em todas as situações. Com certeza, aquele que tem os pais religiosos, seja lá que religião for, não vai atrás de drogas, pois tem como ensinamento, um só caminho a seguir, o caminho da salvação. E mais: a igreja em questão que visitou a Escola Fernão Dias em Sp, não é uma seita. É uma igreja conceituada que estuda a fundo a palavra de Deus. As escolas devem abrir sim as portas para que as igrejas possam falar de Deus, levar música às escolas, ensinar os nossos alunos a conhecerem a Deus de maneira profunda e correta. Deus é, era e há de ser. Na hora do sufoco, os que se dizem ateus, clamam a Deus. O Porchat, da Rede Record, se diz ateu em rede nacional numa entrevista. Foi pular de páraquedas e quem clamou? Meu Deus, meu Deus, Meu Deus! Tres vezes ele clamou, kkkkkk. Vocês viram? Que ateu? São todos assim, por que? Porque sem Deus, NADA existe, nem uma folha se mexe. Deus é SOBERANO e necessário sim nas escolas já perdidas em suas conduções. Ninguém mais consegue conter o mal e a violência debntro e fora das escolas. Somente o poder de Deus.

    Responder
    • 2. apeoesp  |  30/09/2017 às 13:38

      Prezada professora Terezinha,
      A senhora insiste na doutrinação de nossos estudantes. Com a decisão do Supremo Tribunal Federal, todas as religiões deveriam ter o mesmo acesso. As escolas irão virar templos? Espero realmente que na sua escola o candomblé reivindique espaço, assim como o budismo, o islã e outras religiões.Por que sua visão de Deus e da religião deveria prevalecer sobre as outras? Por isso houve a separação entre Igreja e Estado e assim deveria permanecer. Realmente me assusta que uma educadora pretenda usar a sala de aula para fazer doutrinação religiosa. Isto deve ser feito nas igrejas, nos templos, nas comunidades e na família.
      Bebel

      Responder
      • 3. Terezinha Almeida  |  30/09/2017 às 22:53

        Bebel, respeito muito você, mas, pelo jeito, você não soube interpretar a minha opinião. Eu disse, independente de qual religião for. Não disse que a minha religião é a melhor, jamais. É necessário sim, que através das aulas de religião (se forem implantadas), NÃO FALEMOS DE SEITAS E RELIGIÕES, MAS FALEMOS DE DEUS. OS ATEUS, SE QUISEREM, FIQUEM EM OUTRAS SALAS, mas que possamos falar de Amor, de bom comportamento, etc. Quem te disse que doutrino meus alunos, Bebel? Não sou professora de religião e jamais indicaria uma para algum dos meus anjos, mesmo porque respeito a família de cada um. Mas entendo a sua posição. Só não aceito que venha falar de algo que não falei. Eu não falei em Doutrina. Aliás, que bom seria se o Brasil fosse do Senhor Jesus. jamais estaríamos passando por essas coisas. Ladrões no poder e em todos os lugares… É o fim dos bons tempos. Eu, porém, professo a minha fé em Cristo, mas me restrinjo a falar sobre isso na escola, afinal, minhas atitudes já falam por mim. Abraços

      • 4. Edinei nogueira  |  01/10/2017 às 23:12

        Concordo plenamente com vc Bebel.
        Certissimo.
        Eh a treva de volta.
        Quem quer buscar o deus que seja va a igreja, ao templo, ao terreiro…
        … a escola e pra outra coisa.
        Ah e escola tambem nao e creche.
        Se hoje ha uma demanda pq as mulheres tem que trabalhar e nao ha quem possa ficar com a crianca, cria-se creches, nao tranformar escola em creche.

      • 5. Terezinha Almeida  |  09/10/2017 às 00:52

        Bebel, vc e Edinei estão equivocados. Ninguém vai buscar Deus nas escolas e nem vamos falar de Deus como se fala nas igrejas. Será uma aula de Educação Moral e Cívica, como antigamente tínhamos. Será que fui clara? Inclusive, fica a dica. Ao invés de Ensino Religioso, que voltem as aulas de EMC. Pronto! Acabam-se as polêmicas, uai!!

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